terça-feira, 20 de abril de 2010

Lidar com o Instinto do Matar




A maioria de nós olha para um leão, um lobo, ou até mesmo para uma águia gigantesca, e sente assombro e temor. Os treinadores profissionais encaram os animais numa luz diferente.

“Vejo sua condição selvagem natural”, explica Larry, “o perigo existente em sua natureza, mas não é algo deliberado e malévolo como nos humanos. E embora não tenham espírito domesticado, são brincalhões e amigáveis em suas maneiras. São capazes de demonstrar afeição e são amigáveis, enquanto compreender que só podem aceitar as coisas do seu jeito. Mas, ao aprender a dar-se bem com eles, jamais desejará desperceber o instinto de matar. É a primeira coisa que verificamos ao receber novos membros na Ilha dos Tigres.

“A Ilha dos Tigres, junto ao continente (Califórnia, EUA), onde se achava o grande parque natural — foi o lugar onde a leoa arrancou um maço de meus cabelos. As pessoas rodeavam a ilha, de barco, observando os leões e os tigres que corriam livres ali. Eu era um dos treinadores principais que mantinham os 15 a 20 grandes felinos fazendo suas brincadeiras. A maioria dos animais havia crescido no continente, nas áreas de espetáculos. Os treinadores-auxiliares que cuidavam deles enquanto eram animais jovens eram principalmente mulheres, e às vezes os animais ficavam mimados — pois às vezes as mulheres realmente mimam tais criaturinhas. Quando os animais crescem, são enviados para nós, na Ilha dos Tigres, e, se tiverem sido mimados, confrontamo-nos com um problema real e perigoso.

“Certo dia, recebi um leão de cerca de 11 meses, e que pesava 90 quilos. A primeira coisa a fazer quando um animal chega à Ilha dos Tigres é retirar dele qualquer sentimento de posse. Se o animal se apodera de algo, e o detém por certo período de tempo, ele acha que já o possui. Daí, se tentar tirar isso dele, sua vida poderia correr perigo. Eu tinha um jeito especial de testar o espírito possessivo. Eu dava ao animal algo para ele brincar, daí, mandava que o largasse antes de ele se tornar possessivo — ser possessivo significa o direito de destroçá-lo, e às vezes o brinquedo poderia ser você.

“O nome desse novo leãozinho era Dandelion. Eu lhe dei um saco de aniagem. Quando ele começou a brincar com ele, eu lhe mandei soltá-lo. Eu lhe mandei fazer isso três ou quatro vezes. Ele rosnou, ficou de pé nas patas traseiras, abocanhando, mordendo e lutando boxe comigo, com a pata direita, esquerda, direita, esquerda. Eu me esquivava ou bloqueava os seus golpes, e o atingia talvez no focinho. Ele me fez recuar vários metros, até uma árvore onde eu tinha um porrete. Nesse momento, ele caiu ao solo e correu com longos passos para seu saco de aniagem.

“Não poderia deixar que ele se safasse com isso. Peguei o porrete e o escondi atrás de mim ao voltar. De novo, eu lhe mandei: ‘Largue isso.’ Ele bramiu. Eu disse de novo: ‘Largue isso.’ Ele armou seu bote. Eu desci o porrete com força sobre o focinho dele. Foi para o bem dele e o meu. Se ele não aprendesse a obedecer, seria despachado para um zoológico, onde se sentaria numa jaula pelo resto de sua vida. Para este leãozinho, isso poderia significar 20 anos. Uma hora depois, era o momento para outra lição. Eu lhe dei o saco de aniagem, mas ele não quis nem saber dele. Esperei até o dia seguinte.

“No dia seguinte, ele se tornou novamente possessivo, mas, depois de três ‘Largue isso’, ele o largou. Bem, mas não era o bastante. Tinha de aprender a largá-lo logo na primeira vez. Continuamos até que o largou no primeiro ‘Largue isso’. Dali em diante, eu podia estar em qualquer lugar da ilha, não importava quão distante, e se ele se tornasse possessivo com algo, eu gritava ‘Largue isso’. As orelhas de Dandelion baixavam e ele corria dali. Assim, era bom. Significava proteção, sobrevivência.”

A obediência à ordem “Largue isso” poderia significar salvar a vida dum treinador. O irmão de Larry, Gary, devia trabalhar com um elefante africano na Fazenda “Knott’s Berry” no sul da Califórnia. Seu nome era Punky, e depois que seu treinador mostrara a Gary as dicas e ordens que Punky conhecia, Gary pegou o gancho do elefante (um porrete de carvalho, de uns 60 centímetros, com um gancho na ponta) e começou a pôr à prova as qualidades de Punky.

Os animais, porém, são como crianças — tendem a testá-lo. Punky enroscou sua tromba nas pernas de Gary, ergueu-o no alto e passou a correr pelo parque. O gancho caiu ao solo e Gary pensava que seu fim estava próximo. Subitamente, o elefante parou, jogou Gary no chão e ergueu sua pata para esmagá-lo. O treinador original de Punky veio correndo, prendeu a pata dele com seu gancho e gritou: “Largue isso!” Punky saiu andando como se nada tivesse acontecido.

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